O Édem e a Mosca

mosca bebe flor. mosca bebe choro. mosca come coco. mosca nunca chora de fome. não grita. bola plano fingindo limpar a mão. mosca morta não, mosca voa. quanta mosca já foi embora. quanta, quanta. ziiiiip céus. será eu uma mosca? será eu o céu? quanta gente nessa terra, que embrulho, meu Deus do céu. caixas de sapato amontoadas, em vez de moscas, são abelhas. ziiiipziiiip. meu Deus do céu, quer dizer que estou aí e não para fazer mel?

SAVIAK > julho de 2026 > o Édem e a (cht add um emoji de mosca aqui) narra dora.

é o início da manhã.

estamos no sul do brasil.

o capim está molhado.

o ar quente da boca brinca de aparecer e o sol quase aparece.

mas está frio.

pelo menos hoje.

está frio e o céu, em vez de céu com uma gema estralando a energia da vida, está cinza, como um pombo de praça urbana.

pensei muito em pombo.

tenho para mim que ele foi sucateado e violentado de tantas formas, e continua com seus pés quebrados e suas tentativas ridículas de comer isopor.

pensei qual seria o destino de um pombo.

como resolver algo que ninguém comeria, e que, se comer, ainda pode passar mal.

que tem tanto mesmo tendo nada.

me perguntei por que os pombos continuam ali.

me perguntei por que eles não eram como os outros pássaros.

depois gritou no meu ouvido e então eu entendi.

o pombo será correio.

e o restante?

a tensão.

você será tensionado.

saviak é a vírgula.

ou uma flor azul com caule bem verde, cheia de espinhos.

ou uma mosca.

ou um pombo.

ou um rato que come queijo com morango.

uma pessoa, mas também a extensão de outras.

explicando.

caro leitor,

espero que esteja gostando do que lhe apresento.

gostaria de dizer que tudo o que vê foi desenhado por mim e, depois, costurado pelas mãos de uma abelha.

não propriamente isso.

seria impossível.

mas gosto de transitar pelas semióticas das palavras.

os tecidos utilizados na confecção das peças são produzidos no brasil e transformados pelas mãos de artesãs, costureiras e modelistas.

acredito que uma roupa carrega mais do que sua matéria.

ela também carrega o tempo de quem a desenhou, de quem a cortou, de quem a costurou e de quem decidiu vesti-la.

por aqui procuramos trabalhar com tecidos naturais e nacionais.

procuramos reduzir o uso de plástico ao mínimo possível.

até o momento, ele permanece apenas no corpo de fixação dos botões de pressão.

o restante é tecido, metal, linha e trabalho humano.

o real não se repete.

SAVIAK