O Entre e a Mosca

 

início: SAVIAK > julho de 2026 > o entre e a (cht add um emoji de mosca aqui)

mosca bebe flor. mosca bebe choro. mosca come coco. mosca nunca chora de fome. não grita. bola plano fingindo limpar as patas. mosca morta não, mosca voa. quantas moscas já foram embora. quantas? conta. ziiiiip céus. será eu uma mosca? será eu o céu? quanta gente nessa Terra, que me embrulho. meu Deus do céu. caixas de sapato amontoadas, em vez de moscas, são abelhas. ziiiipziiiip. meu Deus do céu, quer dizer que estou aí e não para fazer mel?

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

SAVIAK é a vírgula entre uma palavra e outra.

Os objetos em cena? Meu quarto. Meu íntimo quarto. Lembro dos três dias em que fiquei tirando a tinta antiga desta parede. Depois fiquei doente, porque não usei máscara. E esse guarda-roupa era de uma senhorinha que me pediu para cuidar dele. Então eu cuidei. A roupa de cama veio de minha mãe; ela sempre foi muito cuidadosa. Eu sou jovem, pelo menos eu acho. E talvez, no final, você se pergunte quem sou eu. E eu torno a repetir: o real não se repete.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

A caixa >

A caixa deste ano (2026) foi desenvolvida para permanecer.

Quando eu era criança, via minha vó guardando todas as embalagens possíveis de utilizar no futuro, embaixo do colchão. Costume que não deveria se perder. E, definitivamente, esse gesto latino não deve ser esquecido. A caixa foi arquitetada para ser desmontável e planificada em dois passos. Ela deseja morar embaixo do colchão até a próxima pessoa que será presenteada.

O saquinho de tecido da Saviak também não possui logo, pensando em sua reutilização, seja como embalagem para presente ou para guardar pertences durante viagens ou no guarda-roupa.

Elas foram feitas para continuarem existindo.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

O verbo > item 05

"O verbo" escrito é patrimônio da Saviak. Este livro nasce da tentativa de investigar aquilo que existe antes das definições, antes do conceito, da opinião e da resposta pronta. Ao longo de suas páginas, percorre questões relacionadas ao símbolo, à linguagem, aos sonhos, à arte, à consciência e às formas pelas quais percebemos a realidade, no lugar da investigação sobre aquilo que acontece entre o que vemos, o que sentimos e o que nos tornamos.

O verbo deixa de existir apenas como palavra e passa a ser compreendido como ação, presença e acontecimento. O livro propõe que a experiência humana não é construída somente pelos fatos, mas também pelas relações que estabelecemos com eles. Que memória, imaginação, percepção e realidade coexistem de maneira inseparável. Que a normalidade talvez seja apenas um acordo coletivo sustentado por símbolos que raramente questionamos em nossa atual sociedade americana.

Algumas coisas precisam circular sem pedir permissão ao mercado. Por isso, O Verbo não pretende ensinar ninguém. Também não pretende concluir nada. Foi feito para acompanhar. Para ser lido devagar, interrompido no meio, deixado aberto sobre uma mesa ou esquecido na gaveta da mesa de cabeceira. Para ser reencontrado anos depois, quando o papel já estiver levemente amarelado pelo tempo e algumas perguntas tiverem encontrado novas formas de existir.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

Toda em canjica > item 07

Milho. Semente de milho crioulo. Uma honraria à preservação das técnicas de trançado em fibra natural e à preservação das sementes que sustentam nosso alimento cultural. Toda em Canjica constitui-se de um trançado de palha sobre o qual repousa um corpo sem gênero definido, adornado por pingentes de milho crioulo de duas variedades. Em seu interior, um coração bordado com cravos, reverberando aquilo que é de comer, de sentir o cheiro e de lembrar daquilo que permanece. A bolsa carrega aproximadamente 360 horas de trabalho manual. A renda obtida com esta peça será destinada à alimentação de pessoas em situação de vulnerabilidade social na cidade de São Paulo. A instituição beneficiada e os detalhes da ação serão divulgados no dia da exposição da bolsa.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

As roupas > itens: 02, 03, 04, 05, 06, 07

As peças nascem da observação do corpo em movimento, da não definição, do comportamento quente e do comportamento frio. Nascem na matéria natural, que nasce da Terra, não do petróleo.

Segundo a British Vogue:

"Nearly two-thirds of our garments are made from synthetics such as polyester, nylon, acrylic and elastane — all materials that are derived from fossil fuels."

"Quase dois terços das roupas produzidas atualmente são feitas de fibras sintéticas como poliéster, poliamida, acrílico e elastano, todas derivadas de combustíveis fósseis."

Esta edição parte da tentativa de reencontrar algumas dessas camadas perdidas. Atualmente, o mercado da moda trata conceitos latinos como palco para apropriação cultural de determinados períodos da história, como a favela, o vintage latino e o Brasil caricato vendido internacionalmente. A Saviak propõe que marcas que se viabilizam em cima de determinada cultura façam parte dela, gerando propriedade cultural para a mesma.

A primeira peça é a primeira camada. Uma parte de baixo tradicionalmente intitulada "cueca", mas que propõe outra possibilidade: uma peça que não questiona o gênero para então se apropriar dele.

A regata surge com uma gola profunda e tensional, revelando uma parte do corpo frequentemente atravessada por códigos de gênero, desejo e vigilância. Mostra mais e, ao mesmo tempo, pergunta por quê. Ela procura desmistificar os peitos, lembrar que tudo é corpo.

Depois vem a calça transpassada. Durante sua construção pensei muitas vezes em De Repente 30. Talvez Jennifer Garner pudesse usá-la. Cresci, como tantas outras pessoas da minha geração, cercado por referências norte-americanas. Desejei a vida novaiorquina antes de conhecer as casas do meu próprio bairro. Aprendi a reconhecer celebridades estrangeiras antes de compreender quem eram Angela Ro Ro, Luiz Melodia, Gal Costa, Joelma, Gilberto Gil, Preta e Bela Gil, a TV Cultura e a maionese de domingo. Dos amigos irmãos, da união, daquele que preserva e se emociona, que ama e sabe olhar o presente.

Existe uma espécie de pobreza cultural que se instala quando passamos a admirar apenas aquilo que vem de fora. E existe uma riqueza imensa em reconhecer que nosso repertório já estava aqui.

Nosso lugar é tão nosso.

A calça de duas pregas talvez seja o objeto mais próximo da minha ideia de tradição. Nela aparece o linho, uma fibra antiga, preservada sem perder relevância e que também está presente em nossa camisa, disponível em linho ou algodão. Dois materiais que permanecem porque continuam fazendo sentido. São peças básicas, mas o corte e comportamento Saviak: sem cós separado, com braguilha curva, um bolso na parte traseira e dois invisíveis nas laterais. A camisa surge em gola V e botões mimetizado.

A peça final se dá pela blusa de lã produzida a partir de lã natural de ovelha provenientes do sul do Brasil. Essas peças falam sobre material, técnica construtiva preservada e tensão nos códigos de vestimenta regimentados.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

Produção >

Os tecidos utilizados nesta edição são produzidos no Brasil. Até o momento, o uso de plástico permanece apenas nos corpos de fixação dos botões de pressão e nas etiquetas de cetim. As etiquetas continuam sendo feitas nesse material por serem leves, macias e evitarem atrito desnecessário com a pele. Cada peça de vestimenta leva aproximadamente nove horas para ficar pronta. Grande parte da produção utiliza costura francesa, uma técnica que faz parte importante da construção e da durabilidade das roupas. O desenho e a modelagem são desenvolvidos pela Saviak em colaboração com artistas, artesãos e profissionais independentes. A maioria deles mulheres que sustentam seus próprios lares por meio do trabalho artesanal profissional. Por esse motivo, nossas peças são produzidas em escala artística e manual, com prazo de até quinze dias para envio.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

Equipe galeria online>

Diego Saviak — direção criativa, pesquisa e desenvolvimento.

Rizia da Silva — construção têxtil e produção das peças.

The.Cavallins — fotografia.

Maria Santos — crochê e tricô.

Zana Bordado — bordados.

Lauro Eduardo — intermediador de serviços 

Oásys home — perfumaria 

Camila Luba — canção livrinho 

Esta edição também existe graças às pessoas responsáveis pela serigrafia, tecelagem, beneficiamento de tecidos, aviamentos, transporte, impressão, produção agrícola, manutenção de máquinas, limpeza, embalagem, alimentação, apoio técnico, assistência cotidiana e tantas outras formas de trabalho que raramente aparecem nos créditos.

A todas as pessoas que participaram e irão participar deste projeto, mesmo quando seus nomes não aparecem aqui,

meu muito e grande obrigado.

 

────────────────────────────────────────────────────────

 

SAVIAK > julho de 2026 > o entre e a (cht add um emoji de mosca aqui)

Oferece, como retribuição às pessoas que acreditaram nesta primeira edição, um certificado de artequitrografia.

Cada certificado parte de um desenho-base e utiliza diferentes técnicas e camadas para a construção de sua originalidade. Nenhum exemplar é igual ao outro. Cada certificado é registrado em nome da pessoa que recebe a obra e passa a integrar o arquivo de procedência da Saviak. Um registro material deste início, de um momento em que a Saviak ainda está aprendendo a existir, construindo suas perguntas, seus caminhos e suas permanências.

Guarde-o.

O valor das coisas costuma ser decidido pelo tempo.

 

────────────────────────────────────────────────────────

Fim.
Ou melhor, início:

────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────────

contato

WhatsApp
11 92204-3749

Email
diegosaviak@gmail.com

Instagram
@saviak_

────────────────────────────────────────────────────────

São Paulo — Pinheiros/SP

CNPJ 54.706.820/0001-22

Todos os direitos reservados à SAVIAK.